Nova amiga e amiga nova

Professor,
por que o adjetivo usado antes do substantivo, em alguns casos, altera seu sentido? Exemplo: nova amiga e amiga nova.
Luiz

Esse é um caso interessante, pois bem provavelmente trata-se da tentativa de um idioma, dentro de seu sistema de regras, representar os fatos oriundos da realidade. Temos um fato e a língua tenta simbolizá-lo, gerando novas formas expressivas.

Mas isso muitas vezes depende de regras. No inglês, por exemplo, o adjetivo tem uma fixidez na colocação anteposta ao substantivo. Já no português a colocação normal é a posposição ao substantivo, mas temos liberdade de uso, o que na maioria das vezes se torna apenas um recurso de estilo, algo em que se consegue ênfase, sem alteração de sentido.

Há casos, porém, em que antepor ou pospor o adjetivo ao substantivo produz sentidos diferentes. Em geral, a colocação posterior, por ser a normal, tende a trazer o sentido literal, denotativo, mais objetivo; já a anteposição, por ser a colocação menos comum, gera um valor subjetivo, mais afetivo.

Machado de Assis foi mestre quando o personagem Brás Cubas se intitulou não um autor defunto, mas um defunto autor. Aqui, em particular, é uma troca mais rica ainda, pois também vemos o adjetivo se transformando em substantivo:

- autor defunto: defunto qualifica o tipo de autor

- defunto autor: autor passa a qualificar o tipo de defunto

Quem leu a obra sabe bem a importância de o narrador ser um defunto autor. Essa condição lhe faculta dizer as coisas sem os limites impostos pela etiqueta e pela moral dos seres vivos.

O adjetivo “novo” é, em especial, muito revelador quanto ao lugar e ao sentido. Temos, por exemplo, pessoas com pouca idade e também profissionais que se iniciaram no ofício recentemente. Disso decorre o uso professora nova (= professora jovem) e nova professora (profissionalmente nova).

Por isso, é possível perceber a distinção entre:

- amiga nova: amiga com pouca idade, o que se opõe a uma amiga velha, idosa

- nova amiga: amizade que se iniciou há pouco tempo 

Em sala de aula, quando falo do estrangeirismo e da invasão de palavras inglesas, afirmo que a língua portuguesa estará firme e forte até o dia em que persistir a seguinte diferença:

- boa mulher: mulher muito santa, estimula a filantropia, é mulher para se casar!

- mulher boa: mulher pouco santa, estimula a imaginação, é mulher para se pecar!

Como se vê, a língua portuguesa é especial em vários aspectos e ainda teve a sorte de encontrar um povo irreverente e espirituoso.

Publicado por joao_bolognesi em Dúvidas - Comment (1)

One comment

  1. Comentário by leil on 22 de junho de 2011 at 0:59

    Professor, qual é o erro de concordancia nessa frase? ” Fazeis o que vos manda a consciência, e não fazeis o que convém ao apetite”.

    _________________________________________

    Leil,
    na frase há uma falha de flexão. O imperativo afirmativo do pronome “vós” sai da conjugação do presente do indicativo, menos a letra “-s” terminal:
    presente do indicativo => vós fazeis
    imperativo afirmativo => fazei

    A frase correta inicia-se assim: “Fazei o que vos manda a consciência…”.

    Bons estudos e boa sorte!

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

*

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>